homens tão duros como a
terra que governavam. Nos séculos anteriores à vinda dos
Senhores do Dragão do outro lado do mar, não tinham jurado
fidelidade a ninguém, fazendo tratar-se por Reis do Norte.
Ned parou, finalmente, e ergueu a lanterna de óleo, A cripta
continuava à sua frente, mergulhando na escuridão, mas para
lá daquele ponto as tumbas estavam vazias e por selar;
buracos negros à espera de seus mortos, à espera dele e de seus
filhos. Ned não gostava de pensar naquilo.
- Aqui - disse ele ao seu rei.
Robert acenou em silêncio, ajoelhou-se e inclinou a cabeça.
Havia três tumbas, dispostas lado a lado. Lorde Rickard
Stark, o pai de Ned, tinha um rosto longo e austero. O
esculpidor conhecera-o bem. Estava sentado com uma calma
dignidade, com os dedos de pedra agarrados com força à
espada que tinha no colo, mas em vida todas as espadas lhe
tinham falhado. Em dois sepulcros menores, de ambos os
lados, estavam seus filhos.
Brandon morrera com vinte anos, estrangulado por ordem do
Rei Louco Aerys Targaryen, poucos dias apenas antes de se
casar com Catelyn Tully de Correrrio. O pai fora obrigado a
vê-lo morrer. Era ele o verdadeiro herdeiro, o mais velho,
nascido para governar.
Lyanna tinha apenas dezesseis anos, uma menina-mulher de
inigualável encanto. Ned amara-a de todo o coração. Robert
amara-a ainda mais. Ela estava destinada a ser sua noiva.
- Era mais bela que isto - disse o rei após um silêncio. Seus
olhos demoravam-se no rosto de Lyanna, como se pudesse
trazê-la de volta à vida por um esforço de vontade. Por fim,
ergueu-se, com o peso a torná-lo desajeitado. - Ah, maldição,
Ned, tinha de enterrá-la num lugar como este? - sua voz
estava enrouquecida com a lembrança do desgosto. - Ela
merecia mais que trevas...
- Ela era uma Stark de Winterfell - disse Ned calmamente. -
Este é seu lugar.
- Podia estar em algum lugar numa colina, sob uma árvore de
fruto, com o sol e nuvens acima dela e a chuva para lavá-la.
- Eu estava com ela quando morreu - lembrou Ned ao rei. -
Queria regressar à nossa casa para descansar ao lado de
Brandon e do Pai - por vezes ainda conseguia ouvi-la.
Promete-me, suplicara, num quarto que cheirava a sangue e a
rosas. Promete-me, Ned. A febre levara-lhe as forças e a voz
era tênue como um suspiro, mas quando ele lhe dera sua
palavra, o medo saíra dos olhos da irmã. Ned recordava o
modo como então sorrira, a força com que seus dedos
agarraram os dele quando ela desistira de se agarrar à vida, as
pétalas de rosa que se derramaram de sua mão, mortas e
negras. Depois daquilo, não se lembrava de mais nada.
Tinham-no encontrado ainda abraçado ao seu corpo,
silenciado pela dor. O pequeno cranogmano, Howland Reed,
retirara a mão dela da dele. Ned nada recordava.
- Trago-lhe flores sempre que posso - disse. - Lyanna era...
amiga das flores.
O rei tocou o rosto da estátua, roçando os dedos na pedra
áspera tão suavemente como se fosse carne viva.
- Jurei matar Rhaegar pelo que lhe fez.
- E foi o que Vossa Graça fez - lembrou-lhe Ned.
- Só uma vez - disse Robert amargamente.
Tinham chegado juntos ao baixio do Tridente enquanto a
batalha rugia em seu redor, Robert com seu martelo de
batalha e seu grande elmo dos chifres de veado, e o príncipe
Targaryen revestido de armadura negra. No peitoral trazia o
dragão de três cabeças de sua Casa, todo trabalhado com
rubis que relampejavam como fogo à luz do sol. As águas do
Tridente corriam vermelhas sob os cascos de seus cavalos de
batalha, enquanto eles andavam em círculos e entrechocavam
as armas, uma e outra vez, até que, por fim, um tremendo
golpe do martelo de Robert abriu um rombo no dragão e no
peito que estava por baixo. Quando Ned finalmente chegou
ao local, Rhaegar jazia morto na corrente, enquanto homens
de ambos os exércitos escarafunchavam as águas rodopiantes
em busca de rubis que se tivessem soltado de sua armadura.
- Nos meus sonhos mato-o todas as noites - admitiu Robert. -
Mil mortes ainda serão menos do que ele merece.
Não havia nada que Ned pudesse responder àquilo. Depois de
uma pausa, disse:
- Devemos regressar, Vossa Graça. Sua esposa está à espera.
- Que os Outros carreguem minha esposa - murmurou Robert
em tom azedo, mas encaminhou-se com passos pesados na
direção de onde tinham vindo. - E se ouvir mais alguma vez
"Vossa Graça", enfio sua cabeça num espeto. Somos mais que
isso um para o outro.
- Não me esqueci - respondeu Ned calmamente. - Fale-me
dejon. Robert sacudiu a cabeça.
- Nunca vi um homem adoecer tão depressa. Organizamos um
torneio no dia do nome do meu filho. Se tivesse visto Jon
nesse dia, poderia jurar que viveria para sempre. Uma
quinzena depois, estava morto, A doença foi como um
incêndio em suas tripas. Queimou-o todo por dentro - fez uma
pausa junto a um pilar, em frente à tumba de um Stark há
muito morto. - Adorava aquele velho.
- Ambos o adorávamos - Ned fez uma pausa momentânea. -
Catelyn teme pela irmã. Como Lysa está suportando a dor?
A boca de Robert fez um trejeito amargo.
- Não muito bem, na verdade - a